Ciclo dos Desastres

Nesta aula, aprofundaremos um conceito central que permeia todo o nosso curso: o Ciclo dos Desastres.

Devemos compreender os desastres não apenas como um evento isolado no tempo (o momento em que a tragédia ocorre), mas como um processo contínuo e cíclico. Este ciclo abrange desde as ações pretéritas (antes do evento) até as ações futuras de reconstrução, visando sempre que, se um novo evento ocorrer, seus impactos sejam menores do que os anteriores.

Embora existam variações doutrinárias internacionais sobre o número de estágios, nesta aula iremos abordar o consenso mais utilizado no Brasil e na literatura especializada.

Prevenção

O primeiro estágio foca em evitar a ocorrência do evento ou a criação de novos riscos. A prevenção é ampla e estrutural. Devem existir ações destinadas a evitar que o evento adverso ocorra ou que se instalem condições de risco. Exemplos básicos são:

  • Vedação ao desmatamento em encostas (as raízes funcionam como uma "rede" que segura o solo).
  • Proibição de ocupação irregular (ou regular de luxo) em áreas geologicamente instáveis.
  • Planejamento urbano que impeça a construção em áreas suscetíveis a alagamentos.

Mitigação

Muitas vezes, não é possível impedir o evento natural, como a chuva forte, mas é plenamente possível reduzir ou mitigar a dimensão dos seus danos. É uma visão pragmática de convivência com o risco, minimizando-o. Devem ser tomadas medidas para reduzir os impactos de um desastre iminente ou recorrente. Alguns exemplos de medidas são:

  • Limpeza Urbana: Evitar lixo nas ruas e desentupir bueiros para que a água da chuva possa escoar, transformando o que seria uma enchente catastrófica em um escoamento controlado.
  • Adequação de Imóveis: Construções adaptadas para que, se a água subir, não destrua documentos ou bens essenciais.

Preparação (Preparo)

Este estágio conecta a mitigação à resposta. Se sabemos que o evento vai acontecer e que danos são prováveis, devemos estar prontos para agir antes que o caos se instale. Deve haver um planejamento e organização prévia para otimizar a resposta ao desastre. Algumas medidas básicas são:

  • Definição prévia de abrigos (escolas, ginásios, igrejas).
  • Estocagem estratégica de medicamentos, água, roupas e itens de primeiros socorros.
  • Treinamento das equipes de Defesa Civil e da população (simulados).

Geralmente, é o estágio mais negligenciado pelos gestores públicos. Muitos políticos alegam "imprevisibilidade" após o desastre, quando, na verdade, a falta de preparo para eventos previsíveis, como chuvas de verão, foi a verdadeira causa do colapso no atendimento.

Resposta

É o momento do evento em si. É onde devem ocorrer as ações de socorro e assistência realizadas durante ou imediatamente após o desastre, envolvendo a Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Polícia, Exército, Voluntários. Algumas ações típicas são:

  • Busca e salvamento de vítimas.
  • Liberação de vias obstruídas por deslizamentos.
  • Retirada de pessoas ilhadas.

A eficiência da Resposta depende diretamente da qualidade da Preparação feita anteriormente.

Recuperação

Logo após o momento agudo da resposta, entra a fase de restabelecimento dos serviços essenciais para garantir a dignidade mínima e a saúde da população. Tratam-se de ações de curto prazo para normalizar a vida na área atingida. Geralmente, o foco principal gira em torno de:

  • Restabelecimento de energia elétrica e telefonia.
  • Retorno do abastecimento de água potável (crucial para evitar doenças).
  • Limpeza de esgotos e ruas.

Se esta fase falhar, um desastre físico (enchente) pode evoluir para um desastre sanitário (epidemias por água contaminada), agravando a tragédia.

Reconstrução e Reabilitação ("Build Back Better")

O ciclo se fecha (ou recomeça) aqui. Não basta reconstruir o que caiu; é preciso reconstruir melhor, já tendo em vista medidas de prevenção, mitigação e preparação. Deve haver uma recuperação de longo prazo da comunidade, infraestrutura e economia local.

Nesse contexto, o Escritório da ONU para Redução de Riscos de Desastres (UNDRR) possui a diretriz do princípio do Build Back Better (Construir de Volta Melhor), ou seja, a reconstrução deve buscar eliminar as vulnerabilidades anteriores. É nesse aspecto que, no Brasil, fica evidente uma deficiência: a tendência das políticas públicas locais, regionais ou até mesmo nacionais é reconstruir exatamente como era antes, ou realocar vítimas para outras áreas de risco (como ocorreu em casos no Rio de Janeiro), perpetuando o ciclo de vulnerabilidade. A reconstrução deve respeitar o relevo, melhorar o saneamento e garantir segurança habitacional definitiva.